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A Comunidade Cristã do Primeiro Século e a Igreja Atual: Um Panorama Comparativo Histórico

05/07/2015

O pouco conhecimento sobre a comunidade cristã do primeiro século tem levado a maioria dos crentes a um conhecimento superficial da narrativa bíblica. Entender os contornos geográficos, culturais, políticos e religiosos da igreja primitiva e contrapô-los com a comunidade atual, buscando diferenças e semelhanças é a proposta deste artigo.

O tema é relevante para a comunidade acadêmica por apresentar conceitos geográficos, políticos, culturais, sociais, e religiosos da comunidade cristã do primeiro século e da comunidade evangélica na atualidade, contribuindo para o acervo acadêmico. Socialmente, resgata os princípios pelos quais vivia a igreja apostólica e os contrapõe analogicamente com a comunidade evangélica resultando em maior conhecimento e reconhecimento de sua identidade.

As questões que este trabalho se propõe a resolver são: Como a igreja apostólica vivia a cristandade, com que princípios? Como a igreja atual vive a cristandade? Quais as semelhanças entre o modo de viver o cristianismo entre igreja apostólica e igreja atual? Quais as diferenças entre o modo de viver o cristianismo entre igreja apostólica e igreja atual? Como respostas a estas questões levantamos as seguintes hipóteses que poderão ser confirmadas ou não na conclusão desta pesquisa: A igreja apostólica vivia o fervor da proximidade da vinda de Cristo e por isso um extremo zelo pelo modo de vida cristão. A igreja atual, influenciada pela modernidade e pós-modernidade, absorveu práticas que estão bem distantes das práticas da igreja no primeiro século. As semelhanças entre a igreja do primeiro século e a igreja atual se refletem em uma fé apostólica.  As diferenças entre a igreja do primeiro século e a igreja atual se refletem nas práticas cristãs de uma forma geral.

Para cumprir o objetivo proposto, vamos primeiramente traçar um panorama da comunidade cristã do primeiro século; em seguida, traçar o panorama da comunidade evangélica atual; seguindo a isso vamos apontar semelhanças e diferenças entre uma e outra, finalizando com as considerações finais sobre o assunto.

Esta pesquisa partirá da abordagem dedutiva, ou seja, procurar-se-á extrair de obras já existentes respostas e embasamento que possam comprovar a temática abordada. Serão utilizadas obras de reconhecido valor científico, que já tenham de alguma forma conteúdo relacionado ao tema pesquisado, observando-se apenas o enfoque desejado nesta pesquisa.

Na fundamentação bibliográfica desta pesquisa destacam-se como fontes principais as seguintes obras: David Flusser, O Judaísmo e as origens do Cristianismo, Volumes I, II e II (Tradução de Reinaldo Guarany, 2000); Oscar Skarsaune, À Sombra do Templo (Tradução de Antivan Mendes, 1982); Earle E. Cairns, O Cristianismo através dos Séculos, (1995), além de outras obras catalogadas na referência bibliográfica deste trabalho.

 

A COMUNIDADE CRISTÃ DO PRIMEIRO SÉCULO

            Antes de falarmos da igreja do primeiro século propriamente dita, vamos apresentar o pano de fundo histórico anterior à sua constituição.

Vendo a plenitude dos tempos Deus enviou seu filho” Gl 4:4

Vamos entender “plenitude dos tempos” aqui como o momento perfeito para que o plano de Deus fosse realizado, neste caso o nascimento, vida, morte, ressurreição, ascenção de Jesus Cristo. Vemos três povos envolvidos na consolidação do que as Escrituras chamam de plenitude dos tempos: os Romanos, os Gregos e os Judeus, sendo que cada um deles teve sua contribuição.

            Segundo CAIRNS, os Romanos foram importantes na área política. A formação de um império tão vasto necessitava de algumas medidas, como por exemplo, a concessão de cidadanias a não romanos, visando à permanência destes em suas terras. A construção de grandes estradas também foi um mérito dos romanos com a finalidade de locomoção dentro do império. A manutenção da paz nas estradas era feita pelo exército romano que fazia a segurança das estradas. Vale lembrar que as conquistas romanas levaram muitos à falta de fé em seus deuses (CAIRNS, 1995, p.31).

Os gregos foram importantes por sua contribuição na área da intelectualidade, tendo conquistado os romanos culturalmente. O grego era uma língua universal a exemplo do inglês nos dias de hoje, sendo que a AT foi traduzida para o grego (Septuaginta) e o NT foi escrito em Koine. A supremacia da filosofia destruiu antigas religiões, mas falhou na satisfação das necessidades espirituais. Compreensão da Insuficiência da razão humana e do politeísmo causaram a queda do “poder da filosofia” (CAIRNS, 1995, p.32).

Com relação aos judeus, foi o povo que Deus procurou e se revelou a eles e mais importante, formam a herança do Cristianismo. Resumindo suas contribuições para a plenitude dos tempos foram o monoteísmo; a esperança messiânica e seu sistema ético. O povo de Israel contrastava com a maioria das religiões pagãs por fundamenta-se no monoteísmo espiritual. Após a volta do cativeiro babilônico não se envolveram mais em idolatria, sendo que para eles a mensagem de Deus através de Moisés ligava-os ao Deus vivo e verdadeiro. A mensagem messiânica tinha sido popularizada até mesmo no mundo romano a partir da firme proclamação do povo judeu. Havia uma forte expectativa da vinda do Messias na atmosfera da época. O povo judeu também oferecia o mais puro sistema ético de então, baseado nos dez mandamentos. O pecado era a violação da lei de Deus e não o fracasso externo, mecânico e contratual dos gregos e romanos. (CAIRNS, 1995, p.34).

Flávio Josefo, grande historiador do primeiro século, afirma que entre os judeus havia três escolas filosóficas – saduceus, fariseus e essênios – o que não quer dizer que todos os judeus fizessem parte delas. Ele estava se referindo a uma elite numericamente reduzida da liderança judaica (SKARSAUNE, 2004, p.103).

Por mais diversificado que fosse o judaísmo, os judeus durante a primeira metade do primeiro século não tinham dúvida alguma em distinguir quem era e quem não era judeu. Vale a pena constar o critério básico para tal diferenciação. Judeu é aquele que por descendência ou conversão pertence ao povo que adora o Deus que (normalmente) habita no Templo em Jerusalém. Isto exclui os samaritanos e acolhe os primeiros crentes judeus em Jesus, por exemplo (SKARSAUNE, 2004, p.104).

Os saduceus eram enigmáticos. Negavam a interferência de Deus em questões humanas, bem diferentes dos fariseus. Os saduceus tinham a confiança dos ricos e os fariseus tinham o respaldo das massas. Rejeitavam as regras extra bíblicas dos fariseus. (SKARSAUNE, 2004, p.106)

De acordo com os saduceus, a alma perece juntamente com o corpo. Não guardam nenhum tipo de observância, senão as leis; de fato, têm como virtude disputar com os mestres da vereda de sabedoria que eles perseguem. A poucos homens foi revelada essa doutrina; todavia, tais homens ocupam elevada posição. Não obstante, é quase nada o que fazem, pois sempre que se incubem de algum ofício, embora a ele se submetam relutantes e forçosamente, eis que sucumbem às fórmulas dos fariseus, uma vez que de outra forma as massas não os tolerariam (Antiguidades 18.16-17).

Os saduceus [...] aboliram o Destino [providência divina] completamente, e deslocaram Deus para bem longe, e não somente da perpetração, como da própria visão do mal. Afirmam que o homem tem livre-arbítrio para escolher entre o bem e o mal, e que depende de cada um seguir este ou aquele. Com relação à subsistência da alma depois da morte, castigos no submundo e recompensas, não creem em nada disso [...] Ai está o que tenho a dizer sobre as escolas filosóficas dos judeus (Guerras Judaicas 2.164-66).

SKARSAUNE, 2004, declara que os Saduceus lideravam a comunidade de Qumran e os fariseus, o Templo em Jerusalém. A Comunidade tinha um caráter sacerdotal e se identificava com zadoquitas. Iam contra o Templo por causa do “sacerdócio ímpio”. Consideravam-se filhos da luz que derrotariam os filhos das trevas. O modelo deles era o mesmo do Tabernáculo na ordem hierárquica – 1º Sacerdotes; 2º Levitas e 3º o restante do povo. Apesar de considerar o sacerdócio do Templo corrompido, amavam o Templo. Aguardavam dois messias, um sacerdote e outro rei.

Os essênios habitavam nas praias do Mar Morto e em várias regiões do país. Eram cerca de 4.000. Vestiam linho branco, um tipo de roupa sacerdotal. A doutrina dos essênios deixava tudo nas mãos de Deus. Criam na imortalidade da alma, no esforço para aproximar-se da justiça; tinham caráter elevado e trabalhavam na lavoura.

Josefo afirma que os fariseus surgiram como um grupo distinto em meados do século II a.C. e que eram políticos ardilosos. Já em 67 d. C. eram um partido teológico preocupado com as regras de purificação contidas na Torah. No Templo/ Estado dos hasmoneus, a interpretação e a prática das leis que regulavam a relação das pessoas com o Templo – pureza, dízimos, etc. – tinham um caráter ao mesmo tempo religioso e político. Os fariseus e os saduceus tinham pontos de vista diferentes a esse respeito. Os fariseus defendiam algumas regras não bíblicas, para as quais não tinham justificativa exegética, recorrendo à autoridade dos “antepassados” que lhes haviam transmitido estas regras – o que chamamos de cerca da Lei - cujo objetivo era fazer de cada israelita um sacerdote, uma nação de sacerdotes. Fariseu significa “aquele que se separa”. Fazer de cada israelita um sacerdote e de cada refeição uma ceia (como no Templo). Mudar o coração era o que de fato importava (SKARSAUNE, 2004, p.115 a 119).

O nacionalismo judaico era representado pelo zelotes que eram uma ala nacionalista dos fariseus. Fundado por Judas de Gamla e Zadoque em resposta ao censo: (Depois deste levantou-se Judas, o galileu, nos dias do alistamento, e levou muito povo após si; mas também este pereceu, e todos os que lhe deram ouvidos foram dispersos. - .Atos 5:37). Os zelotes eram combatentes pela liberdade de Israel. Usavam táticas de guerrilha, mas havia alguns radicais no meio deles, os chamados sicários – assassinos que se misturavam ao povo nas festas para causar tumulto. As bases da revolta dos zelotes eram que primeiro, o censo era proibido nas Escrituras e em segundo lugar, o censo contribuía para a tributação. Eles repudiavam a moeda com o rosto de César. Na verdade, a grande guerra com os romanos começou com a oposição dos zelotes.

O Templo em Jerusalém tinha um significado religioso muito forte. Era a morada de Deus na terra; lugar de expiação por meio de sacrifícios ali realizados; meio de se proceder à pureza ritual. Peregrinos da Diáspora ficam até meses em Israel e muitas vezes, voltavam para morar na cidade. Os partidos judeus deixaram de existir no momento em que o Templo desapareceu.

As funções do Sumo Sacerdote no Templo segundo Joaquim Jeremias, citado por SKARSAUNE, 2004, p.92, são:

O Sumo Sacerdote até a época dos Macabeus era por hereditariedade, após o sacerdócio era recebido por indicação política. Interessante o respeito que tinham com relação à autoridade do Sumo Sacerdote. Um exemplo disso foi Paulo, que quando soube que estava falando com um sacerdote, pediu desculpas. Importava a função e não a dignidade, o caráter do sacerdote.

O Sacerdote comum – função abaixo do Sumo Sacerdote – tinha sua função por hereditariedade, não por vocação, nem por ordenação. Oficiavam o culto a cada 24 semanas de sua divisão. Normalmente viviam em aldeias como judeus comuns. Sua função principal era ensinar como aplicar a Torah (SKARSAUNE, 2004, p.94 e 95).

Existiu, no tempo de Herodes, rei da Judéia, um sacerdote chamado Zacarias, da ordem de Abias, e cuja mulher era das filhas de Arão; e o seu nome era Isabel. E eram ambos justos perante Deus, andando sem repreensão em todos os mandamentos e preceitos do Senhor. E não tinham filhos, porque Isabel era estéril, e ambos eram avançados em idade. E aconteceu que, exercendo ele o sacerdócio diante de Deus, na ordem da sua turma. Segundo o costume sacerdotal, coube-lhe em sorte entrar no templo do Senhor para oferecer o incenso. E toda a multidão do povo estava fora, orando, à hora do incenso. Lucas 1:5-10

E o povo estava esperando a Zacarias, e maravilhava-se de que tanto se demorasse no templo. E, saindo ele, não lhes podia falar; e entenderam que tinha tido uma visão no templo. E falava por acenos, e ficou mudo. E sucedeu que, terminados os dias de seu ministério, voltou para sua casa.Lucas 1:21-23

Os levitas eram assistentes e servos dos sacerdotes, como também guardas do templo. Eles traziam a lenha para o altar e outros acessórios para o interior do Templo; preservavam a ordem na área do Templo; abriam e fechavam os portões e revistavam os visitantes.  Apoiavam os sacerdotes em todas as suas funções e eram cantores também. Seu período de serviço era estabelecido de acordo com uma ordem semelhante à dos sacerdotes, como resultado disso era natural que morassem espalhados, como os sacerdotes (SKARSAUNE, 2004, p.95)

Comparando os números de fariseus, saduceus e essênios com os sacerdotes, os primeiros eram uma minoria entre a população judaica. De acordo com Josefo havia poucos saduceus, cerca de 4.000 essênios e mais de 6.000 fariseus, porém o número de sacerdotes e levitas era de 20.000 (SKARSAUNE, 2004, 96).

A primeira comunidade cristã foi estabelecida em Jerusalém, apesar de a liderança ser da Galileia e do grande número de seguidores estarem naquela região. Era muito forte a ligação com Jerusalém. Abandonar Jerusalém era abandonar Deus. A Palavra do Senhor procedia de Jerusalém como escrito em Is 2:3:E irão muitos povos, e dirão: Vinde, subamos ao monte do SENHOR, à casa do Deus de Jacó, para que nos ensine os seus caminhos, e andemos nas suas veredas; porque de Sião sairá a lei, e de Jerusalém a palavra do SENHOR, a começar em Jerusalém. Os novos crentes iam ao Templo para pregar e suscitaram a oposição dos sacerdotes saduceus com relação a isto. A pregação no Templo foi uma estratégia audaciosa dos discípulos que gerou muitos frutos: De sorte que foram batizados os que de bom grado receberam a sua palavra; e naquele dia agregaram-se quase três mil almas - Atos 2:41; Louvando a Deus, e caindo na graça de todo o povo. E todos os dias acrescentava o Senhor à igreja aqueles que se haviam de salvar. - Atos 2:47; Muitos, porém, dos que ouviram a palavra creram, e chegou o número desses homens a quase cinco mil - Atos 4:4; E a multidão dos que criam no Senhor, tanto homens como mulheres, crescia cada vez mais. De sorte que transportavam os enfermos para as ruas, e os punham em leitos e em camilhas para que ao menos a sombra de Pedro, quando este passasse, cobrisse alguns deles. E até das cidades circunvizinhas concorria muita gente a Jerusalém, conduzindo enfermos e atormentados de espíritos imundos; os quais eram todos curados - Atos 5:14-16; E crescia a palavra de Deus, e em Jerusalém se multiplicava muito o número dos discípulos, e grande parte dos sacerdotes obedecia à fé. - Atos 6:7.

Com exceção da aristocracia sacerdotal o povo de Jerusalém era favorável ao novo grupo como relatado por Lucas em Atos 2:47. E ainda protegiam os discípulos das perseguições promovidas pelas autoridades (Atos 4:21 ; 5:26).

Faz-se necessário um esclarecimento sobre o martírio de Estevão, uma vez que ressaltamos a aceitação nos novos crentes pela população de Jerusalém. Segundo SKARSAUNE, havia dois grupos na comunidade de Jerusalém: os “helenistas” e os “hebreus”. Estes termos referem-se à comunidade falante de grego e à outra falante de hebraico e aramaico. Lucas diz que o conflito entre os grupos tinha a ver com “questões administrativas”. Ele não fala de conflitos teológicos. Os “hebreus” reconheciam o Templo e a adoração a Deus ali prestada e até mesmo participavam dela. Já os “helenistas”, liderados por Estevão, rejeitavam o Templo e consequentemente as partes da Torah relacionadas aos sacrifícios. As acusações contra Estevão foram “Este homem não para de falar contra este lugar e contra a Lei. Pois o ouvimos dizer que esse Jesus, o Nazareno, destruirá este lugar e mudará os costumes que Moisés nos deixou (At 6:13,14).

Esta teoria foi confirmada no discurso de Estevão no livro de Atos, capítulo 7. O que aconteceu com Estevão não foi o problema da mensagem mas sim dos ouvintes, de quem o estava ouvindo: E levantaram-se alguns que eram da sinagoga chamada dos libertinos, e dos cireneus e dos alexandrinos, e dos que eram da Cilícia e da Ásia, e disputavam com Estêvão. - Atos 6:9. Ou seja, aqui temos os judeus da Diáspora que se fixaram em Jerusalém. Vemos mais tarde judeus da Diáspora se opondo a Paulo e até mesmo querendo mata-lo.Clamando: Homens israelitas, acudi; este é o homem que por todas as partes ensina a todos contra o povo e contra a lei, e contra este lugar; e, demais disto, introduziu também no templo os gregos, e profanou este santo lugar. - Atos 21:28. A questão era o novo grupo de opositores.

A destruição do Templo não foi um golpe devastador para alguns crentes e para os fariseus, que se achavam mentalmente preparados para lidar com a situação. Jerusalém e o Templo eram importantes para ambos os grupos mas não era uma instituição essencial e insubstituível. Ambos os grupos haviam deixado Jerusalém antes da destruição. Para os cristãos o Templo era lugar de aprendizado e oração – casa de oração – ele era a “suprema sinagoga”. Na Sinagoga, ensinava-se e orava-se mas não se faziam sacrifícios, relata SKARSAUNE. O conceito do Templo como casa de oração e não de sacrifícios surge com grade beleza no relato do martírio de Tiago, preservado graças aos escritos de Hegesipo e graças a Eusébio, que cita a narrativa em sua História Eclesiástica.

Tiago tornou-se líder da assembleia de Jerusalém. Ele fora consagrado ao nazirato desde o ventre materno. Só ele podia adentrar o santuário, e ali foi encontrado de joelhos suplicando perdão para o povo, de al modo que seus joelhos tornaram-se tão rígidos quanto os do camelo [...] Em face desta justiça sobremodo excelente, ele foi chamado de ‘justo’, e ‘Oblias’, que em grego significa ‘baluarte do povo’, e ‘Justiça’, bem como o demonstram os profetas em relação a ele. Tiago era tido em tão alta conta que muitos creram por causa do seu testemunho; os líderes judeus tinham de comparecer perante Tiago e rogar-lhe que, na Páscoa vindoura “contivesse as pessoas; pois que se desviavam de Jesus, como se fora Tiago o Messias. Imploramos a ti que os persuadas a virem ao Dia da Páscoa por causa de Jesus, pois em ti todos depositamos nossa confiança. Porque testificamos perante ti, como o fazem todas as pessoas, que és justo, e que respeitas as pessoas”. Pediram a Tiago que subisse ao pináculo do Templo para que todos o ouvissem. Já no alto, perguntaram-lhe: “Quem é a porta de Jesus?”. Ele respondeu em alta voz: “Por que me indagais sobre o Filho do Homem, uma vez que ele está assentado no céu à mão direita do Grande Poder, e virá nas nuvens do céu?”. E quando muitos de sentiram totalmente convencidos e deram glórias pelo testemunho de Tiago dizendo: “Hosana ao Filho de Davi”, os líderes judeus lamentaram ter concedido esta oportunidade a Tiago para que desse seu testemunho. Arrancaram-no do pináculo e puseram-se a apedrejá-lo, dado que não morreu em consequência da queda. Enquanto era apedrejado, ele orava: “Perdoai-os, pois não sabem o que fazem”. Por fim, foi morto pela maça de um pisoeiro (2.23.2-18)

Comparando com o texto abaixo, da autoria de Josefo:

Ananus, portanto, tendo esse caráter [corrupto], e na crença que tinha uma oportunidade favorável em vista do fato de que Festus [o novo procurador romano] ainda estava a caminho, reuniu o sinédrio e trouxe à sua presença o irmão de Jesus, chamado Cristo, de nome Tiago, juntamente com alguns outros, e acusou-os de violar a lei, condenando-os assim ao apedrejamento (Historia dos Hebreus).

Jesus veio para cumprir integralmente a Torah (Mt 5:17,18). Seu ensino era antigo e novo ao mesmo tempo. Para os gentios crentes a autoridade da Torah foi transferida para ele. Não consideravam mais a Torah como autoridade última. Sua convicção vinha apenas do Messias. Já com relação aos judeus crentes foi diferente. Os judeus crentes não viam motivo para não observar a Torah e continuaram a ser zelosos da lei. Não houve abandono da identidade (SKARSAUNE, 2004,p.159,160).

Jesus ampliou a missão evangelística quando disse para que os discípulos anunciassem o evangelho a todas as nações (Mt 10:5,6). Não havia nenhum problema com relação ao ministério de pregar aos gentios mas alguns queriam pregar para todo Israel primeiro com base em Mt 15:24. Paulo muda este raciocínio em seus escritos por causa da rejeição de Israel ao messias: pregar aos gentios e depois Israel seria salvo (Rm 11). O episódio de Cornélio dá aval à missão aos gentios (At 11:1-8). Mesmo na Diáspora o evangelho chegava primeiro aos judeus, por exemplo em Antioquia: primeiro foi pregado aos judeus e com o passar do tempo os gentios piedosos foram sendo alcançados. Paulo foi levado para Antioquia sob a autoridade dos discípulos de Jerusalém e considerava essencial o seu reconhecimento por eles. Quando foi a Jerusalém, Paulo ficou 15 dias com Pedro, recebendo dele as tradições. Não foi o primeiro a pregar aos gentios, isso já era feito em Antioquia e outras sinagogas. A lei alimentar para os gentios equivale à lei alimentar dos estrangeiros que moravam junto com o povo de Israel.

Segundo SKARSAUNE, Paulo agiu de acordo com o princípio de que o evangelho deveria ser pregado primeiro ao judeu, depois ao grego. Quando chegava a uma cidade, ele ia primeiro à sinagoga para pregar e sua pregação sempre causava divisões. Depois de algum tempo, essas divisões começaram a resultar em violência e então ele começou a pregar somente aos gentios nas casas. Mas não era a quaisquer gentios que Paulo pregava, era aos gentios tementes a Deus. Os gentios tratavam Paulo como judeu. A perseguição a Paulo vinha da parte de judeus invejosos de seu ministério entre os gentios tementes a Deus. Tinham uma preocupação – indevida – com o que Paulo estava ensinando. Paulo era a favor da circuncisão e observância das leis para os judeus crentes. Suas cartas eram variadas, iam de um público imaturo, iniciantes mesmo na fé até crentes bem maduros como é o caso dos Efésios. Os ouvintes de Paulo conheciam o AT e assim sua mensagem era entendida por todos. O sucesso de Paulo junto aos gentios tementes a Deus se deveu ao fato de que eles não queriam a circuncisão e nem a observância de rituais. Alguns chegaram a comentar que era mais “fácil” ser cristão gentio. Mas devemos lembrar a situação política deles e ver que não era tão simples assim. Os judeus eram “protegidos” da perseguição pela tradição dos ancestrais mais os crentes gentios não tinham a quem recorrer no caso de perseguição.

Quanto à reação das autoridades romanas com relação à pregação do evangelho, eles davam pouca atenção à missão aos gentios. Estavam muito ocupados com questões internas. Com relação à nomenclatura, em Antioquia os crentes foram chamados cristãos. Os judeus crentes eram chamados de nazarenos. O problema mais sério envolvendo os cristãos foi quando Nero os culpou de colocar fogo em Roma e cometeu várias atrocidades contra eles (SKARSAUNE, 2004, p. 174,175).

A igreja dos judeus crentes era formada por crentes judeus, ou seja, judeus que acreditavam em Jesus como Messias de Israel e preservavam sua identidade judaica. Foram os primeiros crentes. Dividiam-se em dois grupos: o primeiro habitava em Israel e era comunitário, uma comunidade de judeus mantendo sua identidade. O Segundo grupo era o da Diáspora, onde em comunidades mistas (judeus e gentios crentes), os judeus não conseguiam manter a identidade comunitária e sim individual. Estes, foram sendo reduzidos à medida que a igreja crescia (crescia o número de gentios crentes na igreja).

Na Diáspora já despontava a igreja mista – judeus e gentios crentes. Os documentos que temos sobre este assunto são endêmicos, ou seja, tratam de assuntos internos, de questões internas da comunidade. Temos aí Clemente, o Didaque, Inácio e Barnabé. O que vemos na maior parte dos textos é um minoria judaica ensinando uma maioria gentílica (SKARSAUNE, 2004, p. 211,224).

Com a destruição do Templo em 70 d.C., o judaísmo passou por uma transformação. Os primeiros crentes também pertenciam ao período do segundo Templo. Foram sobreviventes deste período os sábios – pais do judaísmo rabínico e crentes em Jesus – sementes do Cristianismo.

Jerusalém era o lugar da Igreja mãe, início da igreja cristã. Era pouco propícia ao desenvolvimento de profissões mas famosa pelas peregrinações. Os devotos ia a Jerusalém pelo menos uma vez ao ano. Os da Diáspora tinham mais dificuldade, tentando fazer isso pelo menos uma vez na vida. A maioria do judeus vivia fora de Israel e as peregrinações tinham papel fundamental na economia e na prosperidade da cidade. O Templo trazia recursos para a população da cidade, sustento de sacerdotes e levitas e movimentava o comércio. A ampliação feita por Herodes trouxe mais importância econômica ainda. Nota-se a semelhança com o tipo de economia da Jerusalém atual.

A origem do rabinato se dá também com a destruição do Templo em 70 d.C. com o Rabino Johanan Bem Zakkai que pediu para os judeus aceitarem os termos de rendição que Vespasiano propusera, mas eles não aceitaram. O resultado foi que o Rabino fugiu para Jâmnia enquanto os sacerdotes foram massacrados enquanto ofereciam sacrifícios; Sumo Sacerdote e saduceus desaparecem; zelotes foram massacrados e os essênios em Qumran foram destruídos.

Assim em Jâmnia, o Rabino desenvolveu o rabinato e os crentes em Jesus que fugiram para Pela, constituíram o cristianismo.

A sinagogas foram a expressão concreta da preparação para o desaparecimento do Templo em Jerusalém. Segundo a tradição o seu aparecimento se deu quando do exílio babilônico. Em termos arqueológicos, o seu aparecimento é comprovado no Egito em 250 a. C. E em fontes escritas há comprovação de sua existência no século I. A maior parte das sinagogas foi estabelecida na Diáspora. Jerusalém e Judéia não tinham sinagogas, pois tinham o Templo. O trabalho na sinagoga era o de leitura e exposição das Escrituras que podia ser realizada por leigos. Todos oravam, criando assim o sentido de congregação. A liturgia sinagogal era mista judeus e gentios crentes. A sinagoga substituiu o Templo e a oração substituiu o sacrifício.

A igreja existe em dois níveis. Um deles é um organismo eterno, invisível, bíblico e é consolidado pelo Espírito Santo. Outro nível é o da organização temporal, histórica, visível e humana. O primeiro é o fim e o segundo, os meios. O desenvolvimento da igreja como instituição foi iniciado pelos apóstolos sob a direção do Espírito Santo. Todo corpo organizado precisa de uma liderança e quanto mais cresce mais especializada deverá ser esta liderança para funcionar eficiente. Por isso vemos já no primeiro século a implantação de uma organização hierárquica na instituição igreja que vem sendo usada até os nossos dias. Um organismo com o mínimo de organização para atender sua principal função, a conquista da qualidade de vida em todos os sentidos (CAIRNS, 1995, p.64).

A IGREJA ATUAL – PANORAMA DA IGREJA EVANGÉLICA

A igreja evangélica como a conhecemos na atualidade teve origem no movimento da Reforma Protestante, que por sua vez aconteceu em função da falência do sistema papal e da igreja católica romana. Entre 1309 e 1439, a igreja romana desceu a um nível muito baixo no conceito dos leigos. A organização hierárquica, a exigência do celibato e a obediência absoluta ao papa provocaram um declínio da moral e da moralidade dos clérigos. O papado perdeu o respeito dos clérigos de várias áreas sob seu controle. Depois de Bonifácio III, o papado não conseguiu mais subjugar seus clérigos, tendo o ápice no século XV na França e Inglaterra onde havia grande espírito nacionalista. Os impostos papais para sustentar duas cortes – ocidente e oriente - tornaram-se um carga muito pesada para o povo da Europa. Outro fator político teve grande importância no declínio da influência papal na Europa foi o surgimento dos estados nacionais que se opunham à ideia de uma soberania universal. Tudo isso criou uma urgência pela reforma do papado nos século XIV e XV (CAIRNS, 1995, p. 199,200).

Junte-se ao relatado acima, a situação de um novo mundo em expansão, diante das descobertas das terras ocidentais; do surgimento de mais nações-estados; a inauguração da era do comércio que culminou com a Revolução Industrial no século XVIII; a organização social horizontal foi substituída pela organização vertical, onde a classe mais baixa podia emergir à classe mais alta; as transformações intelectuais provocadas pelo Renascimento que criaram um clima intelectual que favoreceu ao protestantismo; a uniformidade religiosa deu lugar à diversidade religiosa. Estava pronto o cenário para que a Reforma acontecesse.

Segunda CAIRNS, 1995, o conceito de Reforma depende da visão do historiador. O historiador católico entende a Reforma como uma rebelião de protestantes contra a igreja Universal. O historiador protestante considera-a como uma reforma que fez a vida religiosa retornar aos padrões do Novo Testamento. O historiador sem crença a interpreta como um movimento revolucionário. (224)

Em 31 de outubro de 1517, Lutero afixou 95 Teses na porta do Castelo de Wittenberg. Nelas condenava o sistema da venda das indulgências e desafiava todos a um debate sobre o assunto. Ele estava apenas criticando o sistema de indulgências a fim de reforma-lo, entretanto entre 1518 e 1521, ele foi forçado a admitir a separação do romanismo como única alternativa para uma reforma que trouxesse de volta o ideal de igreja revelado nas Escrituras.

Foi na Alemanha e nos países escandinavos que o luteranismo conseguiu seus maiores e mais permanentes triunfos. Ao ir contra o sistema de indulgências, Lutero não tinha ideia da enorme obra que acabou fazendo.

Em Genebra, João Calvino construiu um sistema teológico denominado “Calvinismo” O termo “fé reformada” aplica-se ao sistema desenvolvido a partir do sistema de Calvino. “Presbiterianismo” é a palavra usada para exprimir a forma de organização eclesiástica concebida por Calvino, que fez de Genebra o centro de execução de suas ideias. Calvino pode ser apontado como o líder da segunda geração de reformadores (CAIRNS, 1995, p.251).

Enquanto o luteranismo crescia nos países escandinavos, o calvinismo fez adeptos em outras regiões europeias, como por exemplo, vale do Reno, na Alemanha; na Hungria; na Morávia; na França; na Holanda; na Escócia; na Irlanda do Norte; criando um bloco entre o luteranismo no norte e o catolicismo no sul.

Já na Inglaterra a Reforma deu origem ao Anglicanismo, com uma posição conservadora comparada ao Luteranismo. Devido à enorme extensão da colonização britânica, se espalhou por todo o mundo (CAIRNS, 1995, p.266).

Assim, em 1648 as principais igrejas da religião cristã estavam estabelecidas e a partir daí passaram a enfrentar o mesmo inimigo – a secularização, ou seja, o confronto com a cultura cristã com a cultura externa e muitas vezes a última com mais poder do que a primeira.

O Brasil foi descoberto em 1500 pelos portugueses que trouxeram uma herança de um catolicismo sincrético. A religiosidade portuguesa era tão cheia de crendices e superstições que estava longe do catolicismo ortodoxo. Eles encontraram no Brasil uma estrutura tribal simples e enquanto permaneceram na troca de mercadorias não houve nenhum desequilíbrio tribal. Quando os portugueses quiseram avançar da troca para a agricultura, os índios se tornaram um obstáculo tanto pelo lado da posse da terra quanto pelo seu uso como mão de obra. O desejo de dominar o índio ficou sendo a principal meta do colonialismo inicial (CAIRNS, 1995, p. 293).

Para proteger os índios dos europeus, eles eram reunidos em aldeias onde eram catequisados primeiro pelos franciscanos e depois pelos jesuítas após sua chegada ao Brasil. CAIRNS faz a observação de que o Rei de Portugal nunca permitiu livremente o desenvolvimento da Igreja Católica Romana no país, foi um processo vagaroso. Havia o interesse que o Brasil fosse católico, mas não demasiadamente.

Em 1822, o Brasil declara sua independência de Portugal e D. Pedro assina um documento falando da liberdade de culto, sendo que poderiam ser construídas igrejas protestantes no Brasil, mas não poderiam ter a aparência dos prédios das igrejas católicas, já existentes. Este documento seu abertura para que missionários de outros países viessem para o Brasil e aqui implantassem o protestantismo.

No Brasil, três histórias preparam o cenário para o protestantismo brasileiro: Kalley e os congregacionais; Simonton e os presbiterianos; Bagby e os batistas. 

O legado e a importância de Kalley foi o estabelecimento de uma igreja brasileira autossuficiente que logo expandiu sua influência a Portugal. A “Missão Evangelizadora Brasil e Portugal” foi fundada em 1890. O casal Kalley começou a trabalhar com estrangeiros em Petrópolis a partir de 1855. O hinário criado pelos Kalley serviu a todas as denominações, sendo o primeiro a ser feito no Brasil. Kalley abriu uma porta pela qual os presbiterianos vieram a passar.

Simonton enviou sua proposta para a Junta de Missões em novembro de 1858, sugerindo o Brasil como campo no qual estava mais interessando. Um mês depois recebeu a resposta confirmando sua nomeação e campo de trabalho. Em 28 de junho de 1959 parte em direção ao Brasil, desembarcando em 12 de agosto do mesmo ano após uma conturbada viagem. Conheceu Roberto Kalley que lhe passou orientações de acordo com o que vinha vivendo no país. Empenhou-se no trabalho com objetivo de aprender o português, lecionando inglês para as famílias brasileiras. Viu a necessidade de trazer o seu amigo Blackford – casado com sua irmã Lillie para o ministério.            Em 1861 começaram as viagens para outras cidades em São Paulo e surgiu a ideia da implantação do ministério lá também.  Blackford e esposa foram para São Paulo como nova estação ligada à missão. Simonton e Schneider ficaram com o responsabilidade do Rio de Janeiro.

Os protestantes que trouxeram o evangelho ao Brasil transmitiram uma forma de Cristianismo ao mesmo tempo dogmática, puritana e num certo sentido legalista. Trata-se de um cristianismo que exige uma decisão transformadora no estilo de vida, envolvendo inúmeras implicações éticas e sociais. O aspecto puritano é visto pela exigência do pastor que o convertido tenha mudanças de comportamento compatíveis com a nova vida. Os missionários introduziram uma teologia conservadora, baseada nas escrituras como norma de fé. Em sua maioria, as igrejas brasileiras são realmente reformadas, as Escrituras são a razão de ser da igreja.

O protestantismo brasileiro é caracterizado pela espontaneidade e simplicidade, pela liberdade de adorar na igreja ou nos lares, ou ao ar livre, usando cânticos diversos, difere completamente da rigidez litúrgica católica. Os cultos tornaram-se local de encontrar e conviver com as pessoas, formando grupos de pertença.

COMUNIDADE CRISTÃ DO PRIMEIRO SÉCULO E IGREJA NA ATUALIDADE – SEMELHANÇAS E DIFERENÇAS

            A Comunidade Cristã do Primeiro Século teve início com o ministério de Jesus Cristo que teve seu ápice, sua exaltação na sua ressurreição e ascensão aos céus. Contribuíram para a efetivação da comunidade o domínio e opressão civil do Império Romano, que não subjugava o povo com sua religião, e permitia que continuassem com seu sistema religioso. Assim, Israel esperava o Messias para sua libertação e isso era largamente difundido entre todos. A cultura grega além de propiciar a programação da mensagem pelo grego ter se tornado a língua universal da época, também contribuiu à medida que a filosofia abriu espaço para que o homem descobrisse um enorme vazio que a razão não poderia ocupar, preparando-os para receber a mensagem do evangelho. A comunidade judaica desde a revolta dos Macabeus vinha de um processo de valorização da Torah e através disso, sabiam pelos profetas como seria o Messias, de onde ele viria e o que ele faria. Além desta expectativa, eram guardiões da lei moral de sua época em Israel. Podemos dizer que foi um momento de intenso fervor religioso.

A Igreja Atual teve início com o movimento da Reforma Protestante, inicialmente encabeçado por Lutero que visava restaurar as bases ideais da Igreja do Primeiro Século. Ao afixar as 95 teses na porta do Castelo de Wittenberg, Lutero não tinha a menor noção do que se seguiria. A sua insatisfação com a venda de indulgências e outros pontos do catolicismo de sua época deu o star inicial para que parte dos católicos de sua época começassem a buscar as verdades bíblicas, sendo isso possível depois das traduções realizadas para outros idiomas. A insatisfação com o Papado, as circunstâncias de opressão econômica e o surgimento de um nacionalismo foram extremamente importantes neste início.

            A Comunidade Cristã do Primeiro Século era formada inicialmente por judeus crentes e em seguida por gentios crentes. Juntos formavam a Igreja Primitiva. “Veio para o que era seu, e os seus não o receberam.” – Jo 1:11. A princípio, a mensagem do evangelho foi pregada apenas para os judeus. Os discípulos de Jesus eram judeus. Ele veio para as ovelhas perdidas da casa de Israel. Mas gentios ouviram a mensagem e se uniram ao grupo. As sinagogas foram de grande importância para esta inclusão porque eram frequentadas por gentios tementes a Deus. Com o crescimento da proclamação do evangelho vemos mais e mais gentios se rendendo a Jesus Cristo. Assim a igreja primitiva passa de uma igreja de maioria judaica com alguns seguidores gentios para uma igreja gentílica com alguns seguidores judeus, cumprindo assim a palavra de Jesus de que o evangelho seria pregado em todas as nações. Judeus vivendo como judeus e gentios vivendo como gentios.

            A Igreja Atual é formada por gentios crentes e alguns judeus crentes.  De 135 d.C. até bem recentemente o povo judeu vivia ainda na Diáspora, sendo perseguido por “ter matado Jesus” como a igreja católica informava. Em 1948, foi formado oficialmente o Estado de Israel o que permitiu que este povo retornasse ao seu local de origem. É preciso deixar claro que se é judeu por hereditariedade, consanguinidade e não por. isso, judeus crentes espalhados pelo mundo, hoje chamados de “judeus messiânicos”. Da mesma forma que o cristianismo teve origem no judaísmo, o protestantismo teve origem na igreja católica. O grande público alvo de nossa pregação são os católicos de nosso país. Diferentemente da igreja primitiva onde judeus e gentios viviam no mesmo espaço, apendendo e orando, a igreja atual não consegue conviver com as diferenças, sendo que o evangelismo tende a “gentilizar” o judeu; “branquear” o negro, atropelando culturas e muitas vezes as destruindo.

            A Comunidade Cristã do Primeiro Século localizava-se em Israel e na Diáspora. A igreja cristã começou em Israel e se manteve ali por algum tempo e só foi espalhada pelo mundo em função da destruição do Templo em 70 d.C. e pela perseguição em 135 d.C. Com a conversão de Constantino em 325 d.C. vemos surgir o “império da igreja” porque todos os súditos obrigatoriamente se tornaram cristãos. No final do primeiro século, que é o nosso foco a igreja ainda existia em Jerusalém e na Diáspora, ou seja, espalhada pela Ásia Menor e em alguns pontos da Europa, como Paulo relata no livro de Atos.

            A Igreja Atual localiza-se em todo o mundo. A igreja veio de Jerusalém para a Judéia, Samaria e alcançou os confins da terra. Do ponto de vista do início em Jerusalém, nós aqui no Brasil somos os confins da terra. Além de entender igreja como organização, instituição, precisamos entendê-la como organismo vivo, sendo cada crente representante dela onde quer que ele esteja. Ao mesmo tempo, a igreja sofre com a banalização do evangelho, com a falta de testemunho e compromisso de seus participantes, o que não acontecia na igreja primitiva pelos relatos pesquisados.

            A Comunidade Cristã do Primeiro Século não tinha sacerdotes. De uma imensa estrutura sacerdotal para o sacerdócio de todos os crentes. Essa ideia já era defendida por alguns fariseus e ganhou sua plenitude na igreja primitiva. No início a fundamental teológica era ensinada pelos apóstolos de Jesus e por Paulo, que fizeram discípulos, que por sua vez fizeram outros discípulos. Constituiu-se uma organização básica representada por presbíteros (bispos) e diáconos, mas a função sacerdotal como a existente no Templo, foi eliminada. Foi constituída uma rede de ensino e oração que começou no Templo, nas sinagogas e continuou de casa em casa. Da casa que era igreja para a igreja nas casas.

            A Igreja Atual trabalha com clérigos profissionais. Seguindo o exemplo de sua origem a igreja atual tem uma estrutura eclesiástica primeiro complexa e depois diversa. Primeiro complexa pelas várias nominações que vem recebendo, originárias basicamente das três primeiras missões enviadas ao Brasil: congregacional, presbiteriana e batista. Além dessas, hoje o Brasil é povoado por várias denominações e vários dissidentes dessas denominações. Daí a diversidade da liderança da igreja atual. Os pastores geralmente passam por formação em Seminários Teológico e em graduações em Teologia, assumindo uma igreja após o término do curso. Pastoreio virou profissão, não função no corpo de Cristo.

            A Comunidade Cristã do Primeiro Século reunia-se no Templo e nas sinagogas. Quando isso não foi mais possível, passou a reunir-se de casa em casa. Este tipo de congregação permite o partir o pão (fazer as refeições juntos), ter tudo em comum (conhecer mais profundamente o outro) e como consequência ganhar a simpatia pelo testemunho. Exemplos não faltam no livro de Atos e nas cartas de Paulo de como as congregações eram unidas e preocupadas uns com os outros.

            A Igreja Atual reúne-se semanalmente em edifícios construídos para esta finalidade. Muitos crentes apenas visitam a igreja (edifício) sem entender o significado da igreja (corpo de Cristo) e de sua missão. Têm dificuldades com dízimos e ofertas, levando-nos à conclusão da dificuldade do entendimento da soberania de Deus. Hoje a igreja partilha de planos estratégicos e muito raramente sua missão. Como as casas são a moradia da família, muitas vezes são vedadas para receber os “estranhos” da igreja.

           

CONCLUSÃO

Observamos como a economia, política, situação geográfica interferiram e ainda interferem no caminhar da igreja. Notamos que a igreja atual vive os mesmos problemas da igreja primitiva, com agravante da interferência midiática e tecnológica.

Pudemos perceber a fragilidade da igreja no que se refere à influência das ideias e os males causados pela implantação das mesmas ideias. Também pudemos perceber a fuga da ortodoxia, a busca do bem estar e o egoísmo denominacional.

Compreendemos que somente a volta às Escrituras sem nenhuma deturpação e o abandono do uso das mesmas de acordo com interesses escusos pode nos levar de volta ao ideal de igreja contido no Novo Testamento, amparado pelos princípios de vida do Antigo Testamento.

A vantagem da Igreja Primitiva era a proximidade com os princípios de vida contidos na Torah. Assim, quando Jesus falava eles entendiam claramente do que ele estava falando. Eles conheciam e ensinavam a Torah e ela apontava para o próprio Cristo, em todo o tempo.

Atualmente, em várias congregações só se ensina o Novo Testamento, não permitindo ao crente entender o plano completo de Deus para sua vida e entender o conceito judaico-cristão apresentado por Jesus. A regra número um da hermenêutica não é usada: Todo o crene tem o direito e o dever de investigar individualmente as Escrituras. Poucos se debruçam verdadeiramente sobre a Bíblia para seu conhecimento próprio e posterior ensino correto.

Devemos aprender com a história e entender que uma vez que os acontecimentos sejam verdadeiramente compreendidos e assim ensinados, mudaram as atitudes de qualquer um, a começar das instituições.

Que a instituição eclesiástica possa tomar providências no cuidado de seus ministros para que sejam ensinados, dando vitalidade aos ministérios, e que a fé possa ser fortalecida em seus corações. Que a comunidade local desperte-se para isso: que aprenda, ensine e pregue verdadeiramente a Palavra de Deus, sendo conhecedores de sua história e de sua influência na história.

Nós somos hoje o resultado de tudo que aconteceu ontem e seremos amanhã o resultados de nossas decisões hoje.

Que o amor de Deus, a graça de nosso Senhor Jesus Cristo e as consolações do Espírito Santo esteja com todos.

 

Por Elizabeth Alves Pinto

 

 BIBLIOGRAFIA

 CAIRNS, Earle E. O Cristianismo Através dos Séculos. 2ª Edição. São Paulo: Editora Vida Nova, 1995.

FLUSSER, David. O Judaísmo e as Origens do Cristianismo. Volumes I, II e II. Rio de Janeiro: Imago. 2002.

SKARSAUNE, Oskar. À Sombra do Templo – As Influências do Judaísmo no Cristianismo Primitivo. São Paulo: Editora Vida, 2004.

YANCEY, Philip. A Bíblia que Jesus Lia. São Paulo, SP: Editora Vida. 2000.

Bíblia Sagrada. Português. Bíblia e Hinário Novo Cântico. 2ª edição. João Ferreira de Almeida. Barueri, São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 1999.

 

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